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Reproduzimos, abaixo, artigo da advogada Alynne Ferreira Nunes em sua coluna do portal Direcional Escolas.

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Uma data da semana passada merece a nossa atenção: o dia 15 de março, Dia da Escola. Foi também na semana passada, dois dias antes, que assistimos ao massacre na Escola Estadual Raul Brasil, em Suzano, que resultou na morte de 10 pessoas, entre os quais, os próprios atiradores.

Em uma semana: o Dia da Escola e o massacre na Escola Estadual Raul Brasil.

Com a notícia do massacre, a imprensa logo tratou de pesquisar e divulgar o perfil dos dois jovens que provocaram a tragédia. Eram rapazes inseguros, fragilizados, oriundos de famílias desestruturadas, que sofreram bullying na escola e passavam o dia interagindo em fóruns extremistas da internet e jogando games violentos. Ao planejar crimes dessa natureza, os jovens procuram reconhecimento; são célebres suicidas para a comunidade extremista da qual integravam, que os reputam como exemplos a serem seguidos, pois conseguiram colocar o plano em prática.

Embora ajude a entender a possível motivação do massacre, a exposição incansável dos perfis dos criminosos apenas reforça e legitima a ação de grupos extremistas, que planejam e executam os crimes com vistas à exibição massiva, seja por emissoras de TV, como em inúmeros portais de notícias, no Brasil e no mundo.

Para reverter esta narrativa, pais de vítima de massacre em escola nos EUA fundaram o “No notoriety”[1], que recomenda à imprensa que não divulgue os nomes, fotos e nem dê notoriedade aos criminosos. A fama é um dos principais resultados perseguidos pelos extremistas, que buscam ser notados pela sociedade que o excluiu por diversos motivos. Além disso, a motivação do massacre nunca é objetiva, demanda tempo e análises complexas para compreendê-la. Por isso, uma boa investigação a ser empreendida pelas autoridades policiais deve ser abrangente e refletir sobre distintas variáveis. É contraproducente divulgar detalhes sobre a vida dos autores do massacre logo após o seu acontecimento. Não ajuda a evitar novos massacres; pelo contrário.

O caso de Suzano também levantou o debate sobre a segurança nas escolas. Um parlamentar afirmou que se os professores tivessem armados, poderiam ter se defendido. Se os professores devem estar preparados para dar aulas, difícil prever que eles estejam aptos a se defender em massacres dessa natureza. Ninguém espera por isso.

Por outro lado – e esse é o lado que devemos priorizar –, as vítimas do massacre também tinham histórias, assim como os sobreviventes e os heróis e as heroínas que ajudaram a salvar vidas. A merendeira Silmara chamou os alunos para dentro da cozinha e conseguiu empurrar o pesado freezer para formar barricada e proteger os menores[2]. Samuel, uma das vítimas, era um exímio desenhista. Com apenas 16 anos já tinha ilustrado o livro “Como consertar um coração quebrado”, de Adriano Fonseca[3]. Samuel também ilustrou folhetos da igreja adventista. A professora Marilena, também vítima, era a favor do porte de livros como a melhor arma para salvar a educação[4].

Para seguir em frente, a solução está em fortalecer o papel da escola. A educação precisa ser fortalecida como um valor, de modo que nossa sociedade reconheça, cada vez mais, a importância da escola para a construção de uma sociedade mais pacífica, que cultive o respeito às diversidades.

Como, então, tornar a escola um ambiente seguro, livre e de convivência pacífica para todos os alunos e comunidade?

Não há uma resposta única, mas é preciso estimular que a escola, os gestores educacionais e a comunidade escolar construam mecanismos para combater o bullying e perseguir objetivos voltados para o desenvolvimento da cultura de paz e acolhimento. Promover capacitação para professores e funcionários e disponibilizar atendimento psicológico pode contribuir para construir escola plural, segura, na qual a convivência e o aprendizado seja um prazer, que seja reconhecida como ambiente capaz de pacificar a sociedade.

Se a escola nos permite sonhar com um futuro diferente, que seja pela sua relevância para a construção de uma sociedade pacífica, de respeito à diversidade e oposição a qualquer forma de violência.

Que o Dia da Escola seja sempre lembrado e debatido seriamente por toda a sociedade, pois atribuir relevância e prioridade à escola e à comunidade escolar pode evitar a violência e promover a construção de sociedade mais justa e plural.

 

[1] Disponível em: https://nonotoriety.com/?fbclid=IwAR1btNXuGNW4Eagip_BlMcDVy1mIsX0LojJYWjVjF4UslwdM_uR6pTzoieE. Acesso em: 17 mar. 2019.

[2] Disponível em: https://g1.globo.com/sp/mogi-das-cruzes-suzano/noticia/2019/03/13/merendeira-diz-que-ajudou-a-esconder-50-alunos-na-cozinha-durante-ataque.ghtml.

[3] Disponível em: https://g1.globo.com/sp/mogi-das-cruzes-suzano/noticia/2019/03/14/vitima-do-massacre-em-suzano-ilustrou-livro-sobre-superacao-da-dor-e-sonhava-em-ser-artista.ghtml. Acesso em: 17 mar. 2019.

[4] Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/brasil-47533143. Acesso em: 17 mar. 2019.

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